Inspiração

Rafael Labate e o remix que cativou Cory Henry

Rafael Labate venceu a categoria de remix do Jam Sessions fazendo o que faz desde a adolescência: reggae. Em uma visita ao escritório da Moises no Brasil, ele contou como um instinto cultivado ao longo da vida trouxe um marco na sua carreira.

Um produtor de reggae de Praia Grande, no litoral sul de São Paulo, agora tem o nome ao lado de um vencedor de cinco Grammys, em um lançamento oficial. O caminho de um home studio no litoral brasileiro até um feat com Cory Henry não é o tipo de história que se planeja. Mas há um fio condutor que explica tudo: a autenticidade.

O Jam Sessions é uma competição musical global da Moises que conecta artistas, produtores e criadores por meio da música. A cada edição, um artista de destaque compartilha uma faixa exclusiva, e os participantes usam o app Moises para acessar as stems e criar sua própria versão, seja como performance ao vivo (cover) ou produção (remix).

A edição com Cory Henry foi lançada em outubro de 2025. Henry disponibilizou “Dance”, uma faixa inédita criada para o Jam Sessions, dando a músicos do mundo inteiro a chance de reinterpretá-la. A edição ofereceu mais de US$ 50 mil em prêmios aos vencedores, com o apoio de grandes marcas como Fender, Mix with the Masters, Ableton e Blackstar Amps.

Rafael Labate venceu a categoria de melhor produção (Remix). Sua versão preservou a essência do arranjo de Cory Henry e, ao mesmo tempo, reconfigurou tudo sob a ótica do reggae.

Mas a história por trás do remix não cabe dentro da faixa. Quando Rafael foi visitar a sede da Moises no Brasil, aproveitamos para entrevistá-lo e conhecer os bastidores dessa conquista.

A relação com a música começou em casa

Na entrevista, Rafael revela que tudo remonta à infância em Praia Grande. O pai e o tio viviam rodeados de instrumentos. Apesar de não serem músicos profissionais, a casa nunca ficava em silêncio. O reggae foi um caminho natural desde o momento em que Rafael e seu irmão começaram a fazer música juntos.

Aos 13 anos de idade, ele já começava a explorar a produção musical. Aos 15, tocava à noite, imerso na cena local de reggae. Tocou com nomes como Tribo de Jah, Nengo Vieira e Edu Ribeiro. O reggae, como ele mesmo afirma, sempre foi a sua vida.

A parceria com o irmão, também produtor e com estúdio próprio em São Paulo, tem raízes profundas. Os dois são parceiros criativos desde as primeiras experiências musicais. E no remix que venceu o Jam Sessions, essa parceria aparece de forma concreta: o irmão é quem toca bateria na faixa.

“Ele é produtor também, tem um estúdio em São Paulo. A gente sempre trabalhou junto, um sempre puxou o outro.”

Há um detalhe marcante na história de Rafael. Na adolescência, isolar as partes de uma música era algo fora do alcance. Quando ele queria tocar com o irmão, a saída era programar partes de teclado para que os dois pudessem tocar baixo e bateria por cima. Essa mesma necessidade (isolar e recombinar partes de uma música) é hoje o coração da ferramenta que ele usa profissionalmente. A separação de stems, recurso em torno do qual o Moises foi pensado, é exatamente o que o Rafael adolescente em Praia Grande estava procurando.

Um padrão de autenticidade

Não é a primeira vez que Rafael vence um concurso de remix apostando no reggae. Em 2013, Marcelo D2 lançou uma competição semelhante. Rafael participou e levou o primeiro lugar entre cerca de 1.400 produtores.

Ele sabia que D2 tinha afinidade com reggae. Em vez de seguir a maioria e partir para o território da música eletrônica, fez o que era natural.

“Eu também puxei pro reggae, falei, eu sei que ele gosta, né? Vou sair um pouco da bolha de fazer um remix com música eletrônica, algo assim. E aí eu ganhei.”

Mais de uma década depois, com o remix de “Dance” para o Jam Sessions, a fórmula usada por Rafael ainda ressoa: enxergar a conexão, confiar no instinto e apostar no que domina.

O diferencial competitivo de Rafael nunca foi correr atrás de tendências. É a profundidade em uma única direção. Quase treze anos depois, foi justamente essa profundidade que conquistou os jurados e o artista da edição.

A conexão com Cory Henry

A história entre Rafael e Cory Henry não começou no Jam Sessions. Rafael morou sete anos em Atlanta e, nesse tempo, já era fã do artista. Viu Cory tocar ao vivo três vezes e chegou a encontrá-lo pessoalmente em uma dessas ocasiões, quando conseguiu um vinil autografado e conversou sobre o Brasil.

Um encontro rápido entre fã e artista e um concurso global de música: dois pontos que, na época, não tinham nenhuma ligação. Muitos anos depois, se conectaram.

“Nem imaginava, né? E foi massa. Tive esse encontro com ele, tiramos foto, conversamos sobre o Brasil, inclusive. E aí anos depois rolou essa parada aí.”

À primeira vista, um tecladista de gospel, jazz e funk premiado cinco vezes no Grammy e um produtor de reggae do litoral paulista podem parecer uma dupla improvável. Mas, como Rafael explica, o DNA musical é o mesmo. Esses gêneros têm a essência da música negra. E há um instrumento em especial que costura essa ligação: o órgão Hammond.

“Sempre curti muito essa parada do órgão, do gospel ali, que é a influência dele. Mas isso tem tudo a ver com o reggae também. O que se explora de Hammond ali, de órgão, é absurdo. Então as coisas tão bem ligadas, sabe?”

A colaboração dos dois é a prova de que raízes em comum falam mais alto do que rótulos de gênero.

A construção do remix

A direção criativa veio quase de imediato. Rafael já sabia o caminho a seguir. Mas transformar a ideia em uma participação finalizada foi desafiador.

Ele conta que a produção levou mais tempo do que o esperado porque, em paralelo, estava gravando o vídeo.

“Pra gravar tudo foram uns dois dias, mas pra mixar e editar o vídeo foi mais de uma semana.”

Um detalhe que chama atenção é o cuidado com a parte visual. Rafael sincronizou a imagem de Cory Henry com o andamento do próprio remix, quadro a quadro, para dar a impressão de que os dois estavam tocando juntos. Esse tipo de intenção vai além do áudio. Ele queria que os jurados (e o próprio Cory) sentissem que estavam vendo uma colaboração real, não apenas ouvindo uma.

Gravar em vídeo também trouxe desafios logísticos: posicionar os equipamentos em um único espaço, parar e recomeçar a cada erro, administrar o lado técnico junto com o musical. Esse nível de cuidado, tanto no som quanto na imagem, ajudou a destacar a participação dele.

E tudo isso foi feito durante um período pessoal difícil. Rafael gravou em casa com os filhos ao redor, pedindo à esposa que cuidasse deles para ele poder focar na produção.

“Eu tava num momento da vida bem conturbado e falei ‘cara, mas eu vou tirar um tempo aqui pra fazer isso’. Até lembro: eu gravando em casa, e as crianças juntas, e eu falando, ‘meu, dá uma segurada neles aí, mas eu vou pegar firme nisso aqui’.”

O remix não nasceu em um estúdio profissional, sob condições ideais. Nasceu com convicção, em meio à vida real.

Cory ouve as participações em Paris

Após centenas de participações chegarem de diversos locais do mundo, Cory Henry viajou até o estúdio da Mix with the Masters em Paris para uma sessão de escuta dedicada com a Moises. Dentro do estúdio, ele ouviu criações de artistas de vários países, destacando decisões criativas, texturas e momentos marcantes antes de selecionar os finalistas e anunciar os vencedores.

Rafael acompanhou o vídeo dessa sessão com atenção. Um momento em especial ficou marcado: quando uma virada de bateria bem característica do reggae apareceu no remix dele, Cory riu. Foi uma reação sutil, mas para Rafael disse tudo.

“Saber que ele mesmo ouviu a parada… Quando vi o vídeo dele analisando lá. E até vi que quando rolou uma virada bem característica de reggae lá, que ele até deu uma risada, porque a parada pega mesmo a galera. E eu vi que ele curtiu.”

Depois disso, Cory acrescentou seu toque ao remix de Rafael. O resultado é agora um lançamento oficial: Rafael Labate ao lado de Cory Henry. Como parte do prêmio principal do Jam Sessions, o vencedor da categoria Remix recebe 50% dos royalties do master e crédito como artista na faixa.

“Ter um feat, meu nome com o do Cory, é um absurdo. É um gênio.”

Para Rafael, o mais significativo não é o prêmio em si. É saber que Cory se envolveu com o trabalho dele, entrou no seu universo criativo e construiu algo em cima.

“Saber que ele também pôs a mão agora em algo que eu fiz… Achei bem legal isso.”

Ouça o resultado. “Dance (Remix)”, por Rafael Labate e Cory Henry, já está disponível:

Brasil na final

O Brasil teve presença marcante entre os finalistas do Jam Sessions. Helena, de São Paulo, também estava na lista, na categoria Cover.

“Quando eu vi que éramos dois brasileiros na final, eu achei demais a parada.”

Para Rafael, isso foi motivo de orgulho e uma prova da força do talento musical brasileiro.

Joshua Meredith, de Atlanta, venceu a categoria de melhor performance ao vivo (Cover). A trajetória dele mostra o alcance completo do que o Jam Sessions pode proporcionar, incluindo destaque em um painel na Times Square e uma apresentação ao vivo com Cory Henry na NAMM 2026.

Como Rafael usa o Moises

Rafael não é apenas um vencedor de concursos. É um músico em plena atividade, que usa o Moises profissionalmente há mais de três anos.

Na entrevista, ele é direto sobre a adoção entre colegas: quase todo músico que conhece está usando. O uso mais comum é separar faixas para shows.

“Pelos músicos que eu conheço, a galera que eu trabalho, isso aí facilitou a vida de 99% que tá usando hoje. Separar track, usar isso pra inserir alguma coisa ali. ‘Ah, preciso de uns metais ali de uma música pra inserir nos VS da banda’… Tá muito prático isso.”

Além dos shows, Rafael usa a separação de stems para produção: extrair vocais, mudar o tom, criar variações para remixes. Um fluxo de trabalho que ele descreve é extrair um vocal limpo de uma faixa existente para usar como voz guia ao criar uma nova versão.

“Você pega uma voz de uma track que você vai fazer uma versão, usa ela como voz guia pra ter o mapa ali, e você extrai limpinho.”

Mais recentemente, Rafael tem explorado a masterização dentro do Moises. Antes mesmo de a entrevista formal começar, ele já comentava sobre isso: tinha feito algumas masters para projetos profissionais reais e ficou impressionado com o resultado. O elogio dele é específico e técnico.

“Acho que fica sensacional a master de IA. Ela não racha. Ela chega com punch, mas não soa plástico, aquela coisa digital. A master fica pesadíssima, com punch, e mesmo assim sem rachar nada, que é uma dificuldade pra quem trabalha com produção. E a master da IA do Moises fica — caraca, perfeita! Você tem como fazer alguns ajustes lá, de corte de grave ou de agudo, ou de querer uma master um pouco mais pesada. Mas mesmo assim ela sempre chega com um resultado absurdo.”

Existe uma linha poética nessa história. Rafael começou a produzir aos 13 anos porque não conseguia separar faixas. Agora, a separação de stems é o recurso que ele mais usa na ferramenta associada ao concurso que venceu. A tecnologia alcançou a necessidade que ele tinha quando adolescente.

Uma visita à sede da Moises

Rafael estava em turnê pelo Brasil quando surgiu a oportunidade de conhecer a sede da Moises em João Pessoa, na Paraíba. Ele não pensou duas vezes, e se surpreendeu com o que encontrou.

Ele imaginava que a Moises fosse uma empresa americana. Sabia que havia uma sede nos Estados Unidos, mas não fazia ideia da escala da operação no Brasil.

“Eu sei que tem sede nos Estados Unidos e tudo, mas eu não imaginava que tinha um envolvimento tão grande com o Brasil.”

A Moises foi fundada por brasileiros, em João Pessoa, e conta com mais de 70 funcionários no Brasil. Para Rafael, entrar no escritório e ver a operação brasileira de perto foi uma surpresa e motivo de orgulho.

Autenticidade como estratégia

Perto do fim da entrevista, Rafael reflete sobre algo maior do que a própria vitória. Ele pensa nos artistas talentosos que fazem música em casa, muitas vezes sem serem ouvidos, e em como a distância entre o talento e a oportunidade vem encurtando.

“Você vê o quanto de gente tem em casa, fazendo som, que são artistas. Galera de muito talento que às vezes não é conhecido, ou não chega assim tão fácil no ouvido de outras pessoas. Mas tá cheio de gente fazendo música. Ainda mais hoje, usando tudo o que tem de ferramenta.”

A história de Rafael é um retrato concreto do que o Jam Sessions se propõe a fazer: revelar talentos, abrir oportunidades reais e deixar a autenticidade falar mais alto. Ele não tentou ser outra coisa. Fez reggae, porque é isso que sempre fez. E isso ressoou.

O caminho entre programar partes de teclado na adolescência em Praia Grande e assinar um feat oficial com um artista cinco vezes premiado no Grammy foi longo. Mas o fio condutor nunca mudou: apostar no que você conhece e confiar que a oportunidade certa vai reconhecer o valor disso.

O Jam Sessions segue crescendo. A edição seguinte foi com Charlie Puth, e Rafael Labate estava lá de novo. Ele conquistou uma menção honrosa na categoria Remix, provando que o feito com a música de Cory Henry não foi um caso isolado. Conheça os vencedores da edição com Charlie Puth.

Camila Miranda

Sou uma mulher brasileira com formação em Psicologia e um profundo interesse por como pensamos, sentimos e criamos. Amo música. O meu instrumento principal é a voz, mas também toco violão (e já brinquei com o baixo). Sou mãe de gatos, fã de tatuagens e defensora da ideia de que a vida fica melhor quando você muda a cor do cabelo.

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