No mundo da produção musical, é fácil buscar a perfeição, a gravação mais limpa, o refrão mais grudento, a mixagem mais precisa. Mas para o produtor brasileiro Janluska, a magia vive em outro lugar. Se você ouvir atentamente, vai percebê-la nas partes mais confusas: um loop de feedback que se transforma em um solo, uma jam session que vira um groove de sucesso nas paradas, um som "estranho" que torna um disco inesquecível.
Este artigo se aprofunda nas lições que Janluska compartilhou em seu episódio do Off The Record e dá insights extras que não entraram no vídeo final. Seja você um produtor amador, um músico de estúdio, ou apenas alguém que adora quebrar padrões, considere isso como uma deixa para você liberar sua excentricidade, se perder e confiar que algo bom surgirá do caos.
Por que uma Música que soa "Estranha" Pode ser Sua Melhor Gravação
Janluska segue uma regra na vida: se alguém chama sua música de "estranha", esse é o maior elogio que podem fazer a ele. Para ele, estranho significa novo, significa que você está indo além do óbvio e chegando a um lugar onde ninguém esteve antes.
"A melhor coisa que você pode me dizer é: 'Sim, essa música soa estranha.' Estranho é bom, estranho é novo, estranho é diferente."
Essa mentalidade permeia seu trabalho com artistas como Marina Sena, Anavitória e Terno Rei, todos que o procuraram quando queriam se libertar do que já haviam feito antes. Em um mundo onde as tendências recompensam o que é seguro, a abordagem de Janluska é uma rebelião silenciosa: confie nos acasos, mantenha as arestas brutas e lembre-se que a imperfeição é o que faz uma música real.
Às vezes, essa estranheza é pura sorte. Em seu episódio do Off The Record, ele fala sobre o trabalho em Esquinas, de Anavitória, e a busca por um solo de guitarra que simplesmente não encaixava. Depois de uma pausa, eles voltaram e encontraram a guitarra gerando feedback nos monitores, captando interferência de rádio e construindo uma parede de ruído. Esse "erro" se transformou no solo perfeito. A imperfeição vence sempre.
Jam Sessions: Transformando a Bagunça em Criação
Um dos principais elementos no processo de Janluska é seu amor pela energia crua e ao vivo. Para ele, é essencial tirar os artistas do estúdio e colocá-los em ambientes de imersão — como fez no retiro em um sítio que transformou o processo de criação do álbum Coisas Naturais de Marina Sena. “Fizemos um retiro imersivo com a banda dela. Todo mundo foi para esse sítio, começamos a tocar... Viramos tudo de cabeça para baixo — trocamos bateria por beats, cortamos as harmonias.”
Para Janluska, jam sessions não são apenas aquecimentos; são a verdadeira pesquisa. Cada acorde solto, batida de percussão fora do tempo ou riff inacabado pode se tornar o coração da faixa. O truque é não querer ter controle de tudo imediatamente.
Ele grava tudo e depois vasculha o caos para encontrar a faísca. Trata-se de confiar nos seus ouvidos para captar o que parece vivo. Isso é um lembrete de que suas melhores ideias podem aparecer quando você para de forçá-las e simplesmente deixa o ambiente livre para fluir.
Como Encontrar a Identidade Sonora do Seu Álbum
Se você trabalha com Janluska, prepare-se para dedicar tempo explorando a paleta sonora - o conjunto único de texturas, timbres e cores que definirão o projeto. Ele não cria camadas de sons sem propósito. Ele questiona: O que soa verdadeiro para este artista neste momento da sua jornada?
"O que eu gosto de verdade é descobrir o som. Fazer a pesquisa para o álbum, encontrar a identidade sonora juntos, descobrir qual será a paleta sonora para aquele projeto."
Com essa mentalidade, ele foge das conhecidas fórmulas prontas. E isso fica evidente quando observamos como ele une elementos acústicos e digitais: captura um improviso de trompete durante uma jam e o transforma completamente, ou converte um groove de bateria ao vivo em um beat que parece ter vindo de outro planeta.
Esse nível de detalhe exige tempo, curiosidade e confiança. Mas é o que dá a cada disco sua própria impressão digital, algo que não poderia existir sem as pessoas presentes na sala e as imperfeições que elas escolheram manter.
Por que Mais Ouvidos Fazem Melhores Discos
Outro princípio que Janluska defende: não faça tudo sozinho. Ele acredita que os melhores momentos no estúdio acontecem quando as ideias circulam livremente, do artista para o produtor, para os músicos e vice-versa.
"Adoro trabalhar com outros produtores, colaborar com várias mãos em um projeto, ouvir as ideias de todos e pensar juntos."
A colaboração evita que você fique preso na sua própria cabeça, ela quebra o ciclo de velhos hábitos e sons familiares quando todos se sentem seguros o suficiente para lançar uma ideia, mesmo quando é estranha. É aí que a mágica acontece.
Pense nos discos que misturam gêneros e ultrapassam fronteiras moldando a música brasileira hoje. Muitos nasceram exatamente desse tipo de troca criativa. É a prova de que "seu" som não significa necessariamente fazer tudo sozinho. Às vezes, sua melhor ideia está esperando no cérebro de outra pessoa.
Álbuns Começam Muito Antes das Gravações
Antes mesmo da primeira nota, Janluska já está imerso no processo criativo. Para ele, fazer um álbum vai além do estúdio: começa com pesquisa, troca de referências e construção coletiva. É sobre reunir as pessoas certas e definir a identidade sonora do projeto desde o início.
"A gente achando junto, tendo ideias junto, ouvindo música junto e trocando… Acho que fazer disco é muito sobre isso."
Essas conversas iniciais são fundamentais. Ele quer saber o que os artistas estão ouvindo, como se sentem, quais histórias querem contar.
"Eu gosto quando tem referências muito diferentes… porque aí que começam os mundos a se sobrepor, e o projeto começa a ficar interessante."
No fim, tudo se transforma em um ambiente colaborativo, onde a sonoridade não é imposta, mas descoberta. O trabalho de Janluska não é apenas produzir músicas — é criar um universo.
Criatividade é Sobre Escolher Bem
Mesmo apostando na experimentação, Janluska não enxerga a criatividade como algo místico. Para ele, essa visão pode até limitar os artistas. Criar, segundo ele, é muito mais simples e prático: estar presente, analisar possibilidades e tomar boas decisões em conjunto.
"Você pode ter um milhão de ideias, mas você escolher uma pra correr com essa ideia… Eu tendo a achar que as ideias que são mais interessantes são as ideias que circulam pelo grupo."
No estúdio, isso significa assumir o papel de facilitador: orientar sem impor, ouvir mais do que falar e saber quando dar espaço.
"Aquela conexão é, tipo, onírica com a música, mas pra mim também é um estímulo lógico."
Essa perspectiva também alivia a pressão de esperar um momento de “inspiração divina”. Não é sobre genialidade instantânea, e sim sobre clareza, curiosidade e disposição para escolher.
Limitações Também Criam
Janluska não é obcecado por equipamentos caros. Muitas das suas produções favoritas nasceram longe de estúdios sofisticados — em quartos de hotel, salas de espera de aeroporto, só com um notebook e um teclado. "Eu passei muito tempo produzindo só no notebook. Tive que produzir muito em aeroporto, em hotel…"
Para ele, restrições não atrapalham, mas estimulam. Quando as opções são limitadas, as escolhas ficam mais assertivas. Em vez de perder tempo com infinitos plugins, você foca no essencial. "Quando você tem muita porta aberta, você não consegue tomar uma decisão… Não é um grande quadro em branco, mas pode ser muito assustador também."
Essa ideia resume bem sua filosofia: as ferramentas não definem o processo, é o processo que dá sentido às ferramentas. Não é sobre ter mais — é sobre saber usar o que você tem.
Lição Final: Confie na sua Excentricidade
A história de Janluska nos lembra que os melhores trabalhos raramente vem de seguir o manual à risca. Pelo contrário, trabalhos assim nascem nos momentos em que você confia nos seus ouvidos, acredita no que, às vezes, pode soar estranho e mantém a curiosidade em relação a onde seus erros podem te levar.
Então, da próxima vez que você perceber que está descartando uma ideia ainda não lapidada porque ela não soa bem, faça uma pausa para refletir e guarde essa ideia para ouvir no dia seguinte. Chame um colega de banda para escutar. E lembre-se: "estranho" pode ser o maior elogio que alguém pode dar sobre sua música.
Confira o resto da conversa com Janluska em Off the Record, exclusivamente no canal do YouTube do Moises..